segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Suicídio

Ela não nega. Ao sentir sua vagina preenchida sente também estar preenchendo outros vazios, sente que pode finalmente ser mulher, pois só isso faz com que ela se sinta assim, feminina. Esquece que é inútil jogar sementes em terras secas. Ela não é mãe e não sabe se um dia brotará esse desejo, então, de que vale o corpo de uma mulher que não procria? Sofre antecipando essa conclusão, de que é covarde demais pra reproduzir em outro ser todo o seu sofrimento. Deixa-se ser penetrada pra ter essa sensação de conforto, de que sua condição de fêmea tem enfim uma justificativa. Aí o amor chega, e é tão perturbadora essa sensação de ser quista para além da carne que mal pode respirar. Isso confunde tudo, desorganiza o caos que construiu para si. Continua aceitando as piores propostas, as piores mentiras, o pior afeto. Contudo, tornando-se a cada dia, mais arisca e encantadora. Fortalecendo a sedução que escraviza. Afinal, somos todos doentes demais para não querer salvar o que já está quase morto. Está, então, na beira de um precipício, certa de que em alguns segundos não restará nada além do chão, mas isso não impede que estique os braços, seja para ser salva, seja para não cair sozinha.

domingo, 25 de outubro de 2009

Pela décima vez...

Seus músculos coloridos me enlaçam e seu tesão me preenche, mas são apenas alguns instantes. No momento seguinte retorno ao meu lugar, você não sabe o que pode fazer um animal acuado? Você não conhece o meu veneno. Não são ameaças, são cenas do meu cotidiano. Eu me defendo, sempre e instintivamente, de repente meu sorriso se transfigura e você pode até sentir medo. Você vai se cansar, mas então, eu mesma já terei me cansado, da minha insistência, das minhas súplicas. E quando o meu corpo não for mais tão novo pra você, os seus clichês já terão me empurrado de volta ao meu mundo incompreensível ao seu tato. E você, compreende a minha lisergia? Não creio. A sua suposta leveza, nada mais é do que um temperamento infantil de quem já não suporta mais a dor. E eu, sou dolorida, eu machuco, escravizo, estou sempre sangrando. Então, não provoque o caos que você não é capaz de controlar, o meu ar não é manipulável, tenha medo. Não conteste a minha imagem, não se surpreenda com a minhas palavras e os meus berros, não permita que eu faça de você mais um idiota. Não se engane, meu cio constante não faz de você dono da minha beleza. Me aceite somente, sem interpretações, sem interrupções, quem sabe assim eu seja capaz de não te amar.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

"dizer não é dizer sim..."

"Dizer adeus aos amores sinceros e voláteis, às manhãs cheias de desejo e suor, às canções ridículas. Mandar cartas de adeus. Ainda que elas não signifiquem o fim. Dizer adeus a própria doçura e ao desprendimento. Aceitar as amarras. Se despedir do que é real e continuar aguardando o sonho. Dizer não ao agora pra se preparar para um futuro impossível, inatingível. Sentir a latejante dor da precipitação. Dizer adeus ao simples, aos beijos, às conversas singelas sobre o ciúme. Dizer adeus ao ciúme. Baixar os olhos pra falar a verdade e chorar. Se abrir as possibilidades inúteis, ir a todos os lugares contaminados de solidão, rezar. Não à paixão, não à imoralidade, não ao honesto. Acreditar no amor puro e aprisionado, acreditar na adequação. Desejar o cotidiano e despresar o indeterminado. Pertencer. Ter filhos psicológicos e nomeá-los. Dizer adeus às expectativas, mas esperar. Dizer adeus, mas continuar. Não ao fulgás, não à metade, não as consequências. Implorar. Dizer adeus aquilo que quis, aquilo que dominou, aquilo que revolucionou. Se despedir do que não é óbvio e é clichê. Do que é corriqueiro e é sinuoso. Se despedir da dor e da alegria exorbitante. Dizer adeus ao amor inclassificável, ao amor inesperado, ao amor imperdoável... "

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Velha História

Se conheceram há umas duas semanas. Ela não gostou de cheiro dele, uma mistura de suor, cigarro e cerveja, mas o modo desajeitado da abordagem dele fez ela pensar que valeria a pena. Ele, de cara, achou ela muito estranha, sentada sozinha num boteco sujo, bebendo e fumando marlboro vermelho. Uma atitude que ele achava totalmente masculina, só abandonou a possibilidade dela ser gay quando percebeu a delicadeza dos seus gestos. Cogitou ser uma dessas mulheres fáceis que sentam em bares esperando que um velho carente e embriagado lhe pague a conta, mas uma mulher nessas condições não se esforçaria tanto para não ser atraente. Ela, definitivamente, não era uma garota insinuante, ele constatou. Ele a olhava com curiosidade, mas ela achava que era desejo. Não só retribuia o olhar, como desejava desconsertá-lo, ele mais tarde confessaria que não poderia acreditar que uma mulher como ela olhava para ele. Conversaram, em menos de uma hora ela sabia detalhes íntimos da vida dele e achava que aquela atitude além de ser completamente deselegante, demonstrava o quanto ele estava nervoso. Ele percebeu que ela se esforçava muito para não dizer nada que revelasse o que ela realmente estava pensando. Ela adorou o jeito feminino que ele contava como havia sido a sua última separação, ele adorou o jeito masculino que ela olhava pra sua boca.
Conversas antes do sexo:
- Eu amei demais aquela mulher, mas ela queria que eu fôsse uma pessoa que eu não sou. (uma meia verdade dita com certo rancor)
- Você não acha que a revolução sexual devia permitir que nós fôssemos todos mais honestos uns com o outros? Eu acho que só colocou mais uma pedra no sapato de nós mulheres. (tentando parecer liberal mas não promíscua)
- Você aceitaria seu namorado sair pra assistir futebol e beber uma cerveja com os amigos? (fingindo que isso é um problema)
- Você não acha que é normal uma mulher ir pra cama com um homem se sente desejo? (fingindo que isso não é um problema)
Certos de que estavam sendo compreendidos fizeram amor naquela noite, ambos constrangidos. Ela tentava emprestar um tom natural ao olhar que lhe dava apesar da frustração por ele ter gozado tão rápido, ele desejando desesperadamente que ela lhe chupasse o pau, mas sem coragem para pedir. Ela constatou que se queria mesmo gozar teria que radicalizar, chupou, falou coisas obscenas, gritou e disse que achava sexo anal a coisa mais natural do mundo. Ele se esforçou para ser delicado mesmo quando ela pedia que batesse em sua bunda, e olhava em seus olhos para não parecer distante.
Conversas depois do sexo:
- Você é do tipo de mulher que se apaixona facilmente?
(tentando parecer que é só uma pergunta)
- Eu não gosto de conversar ao telefone, acho extremamente cafona ficar conversando por um aparelho durante horas.
(tentando ser diferente)
- Você fez sexo anal comigo só pra me agradar?
(rompante de sinceridade)
- Você não vai pegar o meu número?
(outro rompante de sinceridade)
Se encontram esporadicamente, sempre tentando parecer que foi casual. Ela bebe e demonstra o ciúme que ele tanto espera, ele bebe e fica viril deixando-a excitada. Ele busca nela a mulher que ele perdeu, ela busca nele o homem ideal que nunca vai chegar, ambos sofrendo com a consciência brutal que tudo isso é impossível. Agindo sempre tão artificialmente e tão levianamente que quase fica perceptível o cansaço que essa história causa.

domingo, 27 de setembro de 2009

Parte de algo...

Não vá. Não agora que resolvi te dar todos os sinais. Sei que toda essa demora é sempre exaustiva, te faz querer ir. Mas foi medo de você não querer nada além daquela criança. E era só nela que havia o segredo. E são de segredos que pessoas como nós sobrevivem. Fica e a gente conversa de novo sobre o tempo, sobre as disposições do tempo. Ser entediante assim sem o menor esforço. E aí você briga de novo comigo por causa do Bob Dylan. E me pede pra ser séria. É que fica essa ruguinha aqui no meio da minha testa e eu não quero que você note. Fica e eu prometo não fazer rodeios, não vou falar de como sempre fico chocada quando leio Clarice e passo os dias fazendo interrogações em todo papel que vejo. Nem vou ficar mexendo no cabelo enquanto tento te explicar porque escolho tão minunciosamente a música para cada momento nosso, para cada amor que fazemos. Juro que não vou pedir mais pra você ver os filmes do Bertolucci. Não vai. Não quero que você vá sem eu ter a chance de responder suas perguntas. Não diga que não há mais perguntas. Vou respondê-las todas. Mas vale o aviso que resposta alguma lhe será suficiente. Também não prometo sinceridade, você sabe que estou sempre a criar justificativas, sempre me enganando. Então fica, senta e olha nos meus olhos pra dizermos todas as verdades que não iremos suportar. Vou te dizer que é assim porque, pra nós, não existe conformação e que eu sou mesmo tão irritante a ponto de chorar e dizer adeus só por isso. É o tempo de novo. Estamos sempre esbarrando no tempo. E vai ser simples assim, ainda que simples nunca tenha combinado conosco. Chegamos aqui negando tudo o que fomos. Então não me culpe se ao fechar a porta eu me deitar nua no tapete, bebendo vinho velho, chorando e ouvindo aqueles boleros todos que você odeia. Não me acuse de ser dramática, são de cenas que pessoas como nós se alimentam. Vai ser chato sim ouvir o Bob Dylan, colar o horóscopo todo dia na geladeira, fumar de madrugada sem ninguém pra ver dormindo, pensar no tempo. Mas se esse é o preço de nos mantermos intactos e inconformados, sigamos. Combinados de que somente nos olharemos quando o outro não estiver vendo.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Expulsando Fantasmas

E eu não vou enteder nunca. E nem mesmo sei se quero. Mas não consigo parar de me perguntar, porque você simplesmente não disse que não queria mais. Poderia ser por telefone, ainda que eu saiba que nesse caso eu ficaria me perguntando porque não me falou olhando nos olhos. Mas você não falou. Desapareceu, e tudo o que eu encontrei foi o silêncio. Será que você sabia que esse silêncio me acorrentaria a você pra sempre? Seria um plano sinistro pra que as minhas lágrimas continuassem a alimentar o seu ego? Ou simplesmente não importava? Era preguiça? De uma cena, do meu pranto, da minha raiva. Será que não me conhecia o suficiente pra saber que eu sou civilizada demais? Porque seria isso, eu diria que compreendo o fato de que o amor acaba, mentiria sem nenhum pudor, diria que por mim seríamos sempre bons amigos, que valeu o tempo que durou. Até mesmo daria consolo, quando você me dissesse que o problema era com você, que eu sou mesmo uma mulher especial e que a incapacidade de amar eternamente uma pessoa é sua. Você não falou. Me deixou aqui com todas essas dúvidas, com essa merda toda de auto-estima abalada, com meu coração transbordando amor e mágoa. Eu vou me culpar, por ter sido tão bacana, tão mulher, tão entregue. Eu vou culpá-lo, por ser tão egoísta, tão encantador, tão covarde. E depois vou culpar Deus e o mundo, por ser tão errado, tão torto, tão impreciso. Eu só pediria que quando voce me encontrasse novamente, e eu estivesse com os cabelos compridos da maneira que você sempre me pediu pra deixar, sem salto e sem maquiagem, com o ar leve e um novo futuro amor ao meu lado, não me olhe diretamente nos olhos, não deixe eu perceber em você nenhuma sombra de melancolia, não diga que estou linda e que você sente a minha falta. Dê-me novamente seu silêncio, seja novamente covarde e como eu, civilizado ao ponto de deixar mais uma vez o amor passar.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Chico

O menino me perguntou se um dia realizaríamos todos os nossos sonhos. Doeu. Eu queria dizer que sim, que a vida só vale a pena quando os sonhos são realizados e que tudo é possível. Eu queria dizer que não, que é melhor manter os olhos abertos e os pés no chão, e só viver. Ele conhecia as músicas, as leis e como quebrá-las, conhecia a beleza plena do mundo, mas como enjaular as feras que habitam os corações? Ele não conseguiu, e nem eu. Gastamos, as fichas, os sonhos, a beleza... e a isso chamamos viver. Perdemos, brigamos, choramos... e a isso chamamos amar. E quanto mais busco descrevê-lo, mais voltas dou em torno de mim mesma, numa rotação burra e embriagada, olho e só vejo os meus habitantes. Como é possível viver girando sempre em torno do seu eixo? Não vejo sua luz, e talvez nem ele mesmo, mas podemos sentir, o toque está sempre ao nosso alcance, inclusive nos dias de frio. E mesmo na distância, seu calor de menino triste, me aquece. Sua fúria de menino perdido, me enobrece. E sei que continuaremos amando os sonhadores, rindo das nossas perguntas e chorando por todas as perdas. Continuaremos sonhando, sonhos possíveis e os que não são. E seguiremos, eternos meninos, eternos irmãos.